quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A noite do gato preto

Era madrugada e o calor abafado da noite a convidava para um passeio. Uma caminhada pelas ruas molhadas por uma chuva vespertina, daquelas trombas d´água típicas de verão.

Ela usa chinelos, mas o que ela mais queria era estar descalça sentir o poder daquela noite.

Ninguém na rua, só carros passam ao seu lado sem se importar com ela; bares estão fechados, nenhum lugar onde ela poderia afogar suas mágoas vindas de onde ela não sabia. Sua única opção é continuar andando e respirar, sentir, pensar aquele ar úmido que a cercava.

Respirava a vida a sua volta; seus desejos, suas vontades, seus quereres, tudo passava por sua cabeça – uma cabeça cheia de pensamentos: trabalho, família, amigos. Ela sorri por se lembrar dos amigos que passaram na sua vida e que dão alegria a ela: “Estamos namorando”, “Comprei um apartamento”, “Minha filha nasce daqui a dois meses. Será uma menina linda, que eu quero que tenha o seu nome”. Conquistas daqueles que mesmo distantes ainda estão presentes em seu pensamento e no seu coração, aqueles que ela escolheu como família.

Sua família: uma família cheia de defeitos, mas que ela sabe que é a família perfeita para ela: malucos, bêbados, fumantes, contentes, alegres, com seus problemas, como todos, mas como poucos capazes de superar tantos problemas, e, acima de tudo, com uma coisa que poucos compreendem: todos exercedores da civilidade. Todos nós somos únicos e civilizados.

No seu vagar pelas ruas ela acaba se perdendo, se perdendo nos seus pensamentos. Ela sorri novamente, pois repara que se perdeu no seu admirável senso de localização. Onde ela estaria? O que a teria levado até alí? Mas ela pouco se importa como voltar para casa, ela sabe que seus pensamentos a levarão de regresso.

Descalça suas havaianas, quer sentir o asfalto molhado em seus pés. Sente o calor entre seus dedos e arrepia a espinha por pensar ha quantos anos não fazia isso: sentir. Sente um nó na garganta. Repara que sente saudades, sente falta daqueles que já foram e dos que ainda estão. Sente abraços sinceros no calor da escuridão iluminada da noite paulistana.

Sem querer, está na porta de casa. Uma lágrima escorre e esbarra em seu sorriso, pois surge um gato preto; é hora de se animar, é sinal de alguém que te ama muito ou logo vai se apaixonar.

5 comentários:

André Henriques disse...

Nada como um bom passeio a pé para colocar as idéias em ordem. Lindo texto! =)

Cristian disse...

E o que ela não revelou: o gato preto pulou para detrás de uma floreira que ficava na entrada de um edifício. Ela o acompanhou com o olhar e, sem querer, reparou em algo jogado na calçada, algo q o gato parecia ter querido deixar-lhe. Que seria? À medida q ela se aproxima, vê cores e um curvas. Um objeto reflexivo voltando para si mesmo? Um amuleto felino? Ela firma a vista. E descobre um bambolê. O sorriso vence a confusão inicial. Um elo que a liga aos amigos. E, esperançosa, pensa: que mais o gato lhe trará?

(puxa, Manu, desculpa escrever um texto meio espírito de porco e estragar a poesia do seu. Mas não resisti, hehehehe)

Lia Lee disse...

Manu, muita poesia, muita esperança. Eu acho que queria ser assim de vez enquando... Ser menos pessimista, saber lidar com setimentos...

Cris, sua continuação ficou divertida! Rs.

André Henriques disse...

Memorável bambolê! hehehehehehe

Moniquilda disse...

Com licença!
:)
Que texto bonito. Sentir faz bem (e faz falta!).